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Terras raras, geopolítica e o futuro das engenharias

Nas últimas semanas, o tema das chamadas “terras raras” ganhou destaque nas discussões internacionais envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Donald Trump, evidenciando a crescente importância estratégica desses materiais para a economia global, a soberania tecnológica e a transição energética.

Embora pouco comentadas fora do meio técnico, as terras raras estão presentes em praticamente todas as tecnologias críticas do século XXI. Smartphones, redes ópticas, satélites, motores elétricos, sensores industriais, baterias, sistemas de navegação, radares, data centers, turbinas eólicas e veículos elétricos dependem diretamente desses materiais.

As terras raras formam um conjunto de 17 elementos químicos, incluindo Neodímio, Érbio, Európio e Disprósio. Apesar do nome, muitos deles não são exatamente raros na crosta terrestre; o desafio está na extração, purificação e separação química, processos altamente complexos, caros e ambientalmente delicados.

Atualmente, a China domina grande parte da cadeia mundial de processamento desses materiais. Isso transformou as terras raras em um tema geopolítico central, envolvendo segurança tecnológica, independência industrial e soberania econômica.

Para a comunidade acadêmica e tecnológica, o tema possui enorme relevância.

Na Engenharia de Telecomunicações, por exemplo, fibras ópticas dopadas com Érbio são fundamentais para os amplificadores ópticos usados em redes de longa distância e infraestrutura global de internet. Sem esses materiais, boa parte da comunicação de alta velocidade moderna simplesmente não existiria. Além disso, lasers de estado sólido contendo Neodímio são empregados em sistemas ópticos, instrumentação, sensores e manufatura avançada.

Na Engenharia de Computação e Informática, terras raras aparecem em discos rígidos, memórias, telas, GPUs, chips, sensores MEMS, servidores e sistemas de armazenamento de dados. O crescimento recente da inteligência artificial aumentou ainda mais a demanda por materiais estratégicos empregados em hardware de alto desempenho e centros de processamento.

Na Engenharia Ambiental, surge um dos grandes desafios contemporâneos: como conciliar a necessidade de materiais críticos para a transição energética com os impactos ambientais da mineração? A extração de terras raras pode gerar resíduos tóxicos, contaminação química e impactos em ecossistemas sensíveis. Ao mesmo tempo, esses materiais são essenciais para tecnologias verdes, como turbinas eólicas, motores elétricos, baterias e sistemas de energia renovável. Isso cria um importante debate sobre sustentabilidade, reciclagem tecnológica e mineração responsável.

Já na Engenharia de Transportes, as terras raras desempenham papel estratégico em veículos híbridos e elétricos, sistemas ferroviários inteligentes, sensores embarcados, motores de alta eficiência e tecnologias de navegação e automação logística. Motores contendo ímãs de Neodímio e Disprósio são hoje componentes fundamentais da mobilidade elétrica mundial.

Outro aspecto importante é que a disputa tecnológica contemporânea não ocorre apenas no campo da informática ou da inteligência artificial. Ela também envolve materiais, mineração, energia, logística e domínio industrial. Países que controlam cadeias estratégicas de matérias-primas passam a possuir enorme influência econômica e tecnológica.

O Brasil possui reservas importantes de terras raras e pode desempenhar papel relevante nas próximas décadas. Isso abre oportunidades para pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, inovação industrial e formação de profissionais altamente qualificados.

Para estudantes e pesquisadores das engenharias, esse é um excelente exemplo de como física, química, ciência dos materiais, computação, energia, sustentabilidade e geopolítica estão profundamente conectadas.

Mais do que um tema econômico, as terras raras representam um dos grandes desafios científicos, tecnológicos e ambientais do século XXI.

Referências introdutórias

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Texto enviado pelo Prof. Dr. Luís Fernando de Ávila